Welcome to the club

Esta carta foi escrita pela Jess (A Diary of a Mom), para uma amiga que tinha acabado de receber o diagnóstico de autismo da filha.

É uma lição de vida para quaisquer pais de crianças especiais.

Segue a tradução dessa carta linda e sensível.

Bem-vinda ao clube

Minha querida amiga,

Sinto tanto pela sua dor.

Não se preocupe: ninguém mais está vendo, eu prometo. Para o resto do mundo, você está bem. Mas, quando você já esteve lá, você percebe.

Eu vejo nos seus olhos. Aquela terrível mistura combustível de dor dilacerante e medo. Eu lembro do medo.

Eu o vejo no peso desse manto invisível que você usa. Lembro-me do quão rude seu tecido era em minha pele. Como lã crua no meio do deserto. Sabe, ele foi meu por um tempo.

Eu nunca iria querer passá-lo para você, meu amor. Eu me lembro muito bem de sufocar sob o peso dele, brigando por ar, lutando para me livrar dele enquanto me envolvia no seu calor horrível, agarrando suas bordas desgastadas pela vida.

Eu sei ele parece permanente, fixo. Mas um dia você vai acordar e descobrir que você o deixou próximo à cama. Eventualmente, você vai pendurá-lo no armário. Você vai visitá-lo de vez em quando. Você vai experimentá-lo para ver se serve. Você vai correr seus dedos pelo tecido e lembrar de quando você viveu dentro dele, quando ele era constante, quando você não podia tirá-lo e deixá-lo para trás. Mas, em breve, passarão dias antes de você usá-lo novamente, depois semanas, depois meses.

Sei que você está olhando para o que parece ser uma curva de aprendizado incrivelmente íngreme. Eu sei que parece uma montanha imóvel. Não é. Eu sei que você não acredita em mim, mas passo a passo você vai subi-la até que, subitamente, sem aviso, você olhará para baixo. Você verá o quão longe chegou. Você vai respirar. Eu prometo. Você pode até vir a admirar a paisagem.

Você vai duvidar de você mesma. Você não confiará nos seus instintos imediatamente. Você temerá não ter a capacidade de ser o que a sua filha precisa que você seja. Pior, você pensará que nem sabe o que ela precisa que você seja. Você sabe. Eu prometo. Você saberá.

Quando você se tornou mãe, você segurou aquela pequena bebezinha em seus braços e, em um instante, ela encheu o seu coração. Você foi sobrecarregada de amor. O tipo de amor que você nunca esperava. O tipo que tira o fôlego. O tipo de amor tão abrangente que você acha impossível deixar espaço para outro. Mas ele deixou.

Quando seu filho nasceu, você olhou dentro daqueles grandes olhos azuis e ele se arrastou bem pra dentro do seu coração. Ele arrumou um espaço pra ele, não arrumou? Ele esculpiu um espaço dele mesmo. De repente, seu coração estava, simplesmente, maior. E, depois, novamente, quando sua filha mais nova nasceu. Ela fez-se em casa ali também.

É assim que acontece. Quando você precisa de capacidade, você encontra. Seu coração expande. Simplesmente assim. É elástico. Eu prometo.

Você é tão mais forte do que pensa que é. Confie em mim. Eu te conheço. Eu sou você.

Você vai encontrar pessoas na vida que entendem, e algumas que não. Você encontrará algumas que querem entender e algumas que nunca vão. Você achará afinidade com pessoas que você nunca pensou que teria qualquer coisa em comum. Você encontrará conforto e alívio com amigos que falam sua nova língua. Você encontrará a sua aldeia.

Você vai mudar. Um dia, você notará a mudança. Você perceberá que certas palavras caíram fora do seu dicionário. Aquelas que você nunca pensou que machucariam. “Cara, isso é retardado”. Nunca mais. Você não rirá da vulnerabilidade. Você verá o mundo através das lentes da sensibilidade. As pessoas ao seu redor vão notar. Você as mudará também.

Você aprenderá a pedir ajuda. Você terá que pedir. Não será fácil. Você esquecerá algumas vezes. A vida vai te lembrar.

Você vai ler mais do que pode processar. Você comprará livros que não conseguirá ler. Você se sentirá culpada porque eles estão largados ao lado da cama, fechados. Vá devagar. A informação não vai fugir pra lugar algum. Deixe seu coração sarar. Ele irá sarar. Respire. Você pode.

Você irá se culpar. Você pensará que deixou passar sinais que deveria ter visto. Você estará convencida de que deveria ter percebido. Que você deveria, de alguma forma, ter procurado ajuda mais cedo. Você não tinha como saber. Não se deixe ficar nessa por muito tempo.

Você vai cavar fundo e encontrar reservas de energia que você nunca acreditou ter.  Você vai viver na adrenalina e em noites de sono profundo e sem sonhos. Mas você vai superar isso. Eu juro, você vai. Você vai encontrar um ritmo.

Você vai se negligenciar. Você vai perceber, de repente, que você não parou de se mover. Você faltou à academia. Você cuidou de todo mundo, menos de você. Você esquecerá do quão importante é cuidar de si mesma. Escute-me. Se você não escutar nada mais, escute isso: você PRECISA se cuidar. Você não serve de nada pra ninguém a não ser que esteja saudável. Eu quero dizer no geral, minha amiga. SAUDÁVEL. Nutrida, descansada, com a alma alimentada. Seus filhos merecem esse exemplo.

Uma amiga vai te forçar a dar uma caminhada. Você sairá de casa. Você olhará para o céu. Siga as nuvens acima. Tente encontrar onde elas terminam. Você precisará disso. Você precisará de ar. Você precisará lembrar-se do quão pequenos nós realmente somos.

Você questionará a sua fé. Ou vai encontrá-la. Talvez, os dois.

Você nunca, jamais, vai dar pouca importância para o progresso. Cada etapa alcançada, não interessa o tempo, será motivo de celebração. Cada pequeno passo será um salto quântico. Você encontrará as pessoas que entenderão isso. Você vai se deleitar com esse apoio, e amor, e emoção compartilhados.

Você encontrará pessoas que se preocupam com sua filha de forma a restaurar sua fé na humanidade. Você vai estimar os professores, terapeutas e cuidadores que sabem dos desafios pelos quais ela passou e que realmente conhecem suas fortalezas. Essas pessoas serão como família.

Você examinará e re-examinará cada uma das suas próprias inseguranças. Você reconhecerá algumas deficiências da sua filha como suas próprias. Você conhecerá a si mesma à medida em que for conhecendo sua filha. Você vai olhar para as ferramentas que usou para aliviar suas próprias deficiências. Você vai compartilhá-las. Vocês duas melhorarão por causa disso.

Você irá entender que há dádivas em tudo isso. Tolerância, compaixão, compreensão. Precioso, a vida mudando as dádivas.

Você se preocupará com seus outros filhos. Você sentirá que não está dedicando a eles tempo suficiente. Você achará tempo. Sim. Você achará. Realmente, você achará. Você descobrirá que o tempo que importa pra eles não é grande. Não é uma viagem ao circo. Não envolve planejamento. É livre. Você esquecerá os shows de cachorros e pôneis. Ao invés disso, você vai arranjar 15 minutos antes da hora de dormir. Você vai fechar a porta. Sentará no chão. Vai brincar de Barbie com a sua filha ou Lego com o seu filho. Você falará. Você ouvirá. Você ouvirá um pouco mais. Você começará a acreditar que eles vão ficar bem. E eles vão. Você será uma mãe melhor por tudo isso.

Você encontrará as ferramentas de que precisa. Você pegará pedaços de diferentes teorias e práticas. Você falará com pais, e médicos, e terapeutas. Você aproveitará alguma coisa de cada um deles. Você encontrará valor até naqueles com quem não concorda. Algumas vezes, muito. Dos retalhos que você junta, você começará a construir a colcha da sua filha. Um pouco disso, um pouco daquilo, um monte de amor.

Você vai falar meio hesitante no início, mas encontrará a sua voz. Você virá a perceber que ninguém conhece sua filha melhor do que você. Você vai ouvir, respeitosamente, aos experts em cada campo. Você vai valorizar sua experiência e conhecimento. Mas você vai lembrar, por último, que, enquanto eles são experts na ciência deles, você é expert na sua filha.

Você pensará que não dá conta. Você estará errada.

Não é uma estrada fácil, mas suas recompensas são tremendas. Suas alegrias são o mais doce néctar da vida. Você vai bebê-lo e experimentá-lo até a última gota.

Você ficará ok.

Você ajudará sua doce filhinha a ser muito mais que ok. Você mostrará a ela um amor sem limites. Ela saberá que é aceita ,e valorizada, e celebrada por cada pedacinho de quem ela é. Ela saberá que a mamãe está lá o tempo todo. Ela vai acreditar em si mesma como você acredita. Ela vai surpreendê-la. Várias e várias vezes. Ela vai te ensinar muito mais do que você a ensina. Ela vai voar.

Você ficará bem.

E eu estarei aqui por você. Em cada passo do caminho.

Com amor,

Jess

Link para o texto original, em inglês: http://adiaryofamom.wordpress.com/2009/05/01/welcome-to-the-club/

 

6 thoughts on “Welcome to the club

  1. Não me canso de ler, de me enxergar naqueles dias que eu morri. E não me canso de constatar que tudo isso é verdade. A ânsia pela informação (passei 4 noites sem dormir lendo artigos na internet, comprei 2 livros sobre o tema e tentei lê-los simultaneamente, na mesma semana que participei de palestra para ‘iniciantes’ na AMA e falei com outras dezenas de psicólogos e especialistas), a sensação boa da escalada da montanha e a recompensa pela beleza da paisagem, a conquista dos pequenos saltos quânticos do desenvolvimento, os retalhos dos outros que a gente junta pra costurar o nosso cobertor de amor, a descoberta orgulhosa da força que existe no pré sal da nossa alma e a grande transformação que estou vivendo como pessoa através das lições que aprendo com meu filho todos os dias. Se eu soubesse que seria assim, talvez não tivesse morrido daquela vez. Tomara que as mães recém diagnosticadas tenham a chance de saber que o texto é absolutamente verdadeiro. Somos, como outras milhares de mães e famílias, a prova viva de que é a mais pura verdade. Me emociono toda vez. bjos, Natalia (mãe do Nicolas)

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